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domingo, 13 de dezembro de 2015

3.2

A versão 3.2 é mais rápida. Essa é uma das principais diferenças em relação ao modelo anterior. Tem uma velocidade de 8,9 km/h. O consumo, porém, se manteve. Não é possível operar este modelo sem uma quantidade mínima de cafeína.

A versão 3.2 também é mais resistente. Foram feitos vários testes nos últimos anos e o protótipo se mostrou capaz de levantar a cada queda, apesar de alguns arranhões, nem sempre visíveis.
Nesta versão os engenheiros optaram por abandonar um extra que vinha ocupando espaço em modelos anteriores. O resultado não poderia ter sido melhor. A versão 3.2 ganhou leveza, autonomia e uma delicadeza que não se via desde o modelo 2.9.

A versão 3.2 vem ainda com um acessório um pouco barulhento e, por vezes, pouco funcional. Contudo, já foi verificado que sem esse acessório a máquina se torna incapaz de funcionar.

Sabemos que essa ainda não é a versão final e que ainda há muitas melhorias a serem feitas, no entanto, estamos orgulhosos e felizes com os resultados alcançados até aqui.

Janela virtual

Quando a gente terminou eu botei cortinas novas nas janelas e prometi a mim mesma nunca mais abri-las já que o meu apartamento, que era de fundos, dava de frente para a sua casa. Mas não foi suficiente para bater a força da natureza humana. Essa sede mesquinha de saber, de analisar e esmiuçar à procura daquele segundo onde tudo mudou.

A cada coisa que você fazia eu me torturava mais um pouquinho, eu torcia de leve o punhal sobre a carne. Eu espiava sua vida com devoção e regularidade mas sempre de longe, sorrateiramente. Fiquei alguns meses assim, bisbilhotando, vivenciando em silêncio cada passo seu através das cortinas novas que eu tinha jurado fechar para sempre.

Vi você se formar, vi seus dias ruins, vi você feliz. Secretamente eu rezava para que um dia você parasse em frente à minha janela e lembrasse que eu estava lá, pacientemente, à espera. Mais do que querer, eu acreditava que isso aconteceria.

Até que um dia, aconteceu. Parece coisa de cinema. Você ficou ali, em frente à minha janela e abriu os braços. Foi aí que meu coração, tão cansado dos meses de sofrimento calado, parou de vez. Ela caminhou na sua direção e encaixou perfeitamente no seu abraço, de um jeito que só eu achava que cabia.

Taquei fogo nas cortinas e coloquei o apartamento de fundos à venda. Hoje eu moro de frente para o mar e a única coisa que eu vejo quando olho da minha janela é o infinito.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Da urgência e do amor

O mundo hoje sofre de urgências. As pessoas querem amar, precisam amar. Nessa carência exarcebadada, acabamos caindo na banalização do amor. Você começa um relacionamento e ama. Arruma um novo amigo e ama. Vai comprar pão e ama. Ama tanto que já nem sabe mais a quem se destina tanto amor.

É nesse afã de amar tudo o que respira e mexe que se denota uma impaciência tão característica da nossa condição humana. Queremos um grande amor, já. Queremos para ontem o que temos medo de não ter jamais. Procuramos alguém que nos traga a pessoa amada em três dias. Em duas horas. No intervalo da novela. Enquanto a pizza não chega. Enquanto se esquenta a comida no microondas.

Já não sabemos esperar. Queremos fotos digitais que se vêem na hora. Internet mais rápida. Carros mais velozes. Fast food. Computadores mais eficientes. Tudo para ganhar tempo.

Mas... Tempo para quê?

Tempo para tirarmos mais fotos mais rápidas. Para fazermos mais downloads de filmes que não teremos tempo pra ver. Para chegarmos mais rápido e fazermos mais coisas simultaneamente, sem perda de tempo porque, como reza o adágio: "Tempo é dinheiro". Contudo, ao poupar esse bem tão precioso, perdemos a vida.

Perdemos as horas de ansiedade gostosa na espera de fotos por serem reveladas. Perdemos o borbulhar da água fervendo no fogão e o cheiro de refogado que inunda a casa. A riqueza de detalhes de um passeio a pé. O sabor da comida feita a partir do nada. Sobretudo, perdemos a beleza da conquista de um amor que, ao contrário de um pacotinho de miojo, não é instantâneo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Crônica à Morte

Então ela olhou bem fundo nos olhos do abismo da sua existência. Lá de baixo, a miséria lhe sorria, zombeteira. Tinha cabelos grisalhos e sonhos destruídos. Longe ia o tempo da mocidade alegre e pensamentos distraídos.

O rosto encovado escondia o sorriso que já há muito deixara sua face. Os olhos baços não lembravam nem de longe o olhar esperançoso que costumavam exibir sem pudor. Sim, andava encurvada por todo peso de uma existência vazia. Pés cansados, calejados de vagar sem destino por um tempo que parecia correr ao contrário. Mãos grossas, pesadas que eram nada mais que um testemunho de uma vida passada a escorar lágrimas que jorravam feito tempestade. Sem delicadeza. Sem beleza. Sem nada que remotamente trouxesse algo de bom.

Quis sorrir mais uma vez. Em vão. Quis calar, mas da sua boca sairam duas palavras que não conseguiu conter. E, enquanto o abismo lhe devorava, expirou:

- À Deus.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Oração

... mas livrai-nos do mal. E dos sorrisos forçados. Das alegrias que faltam. Das tristezas que duram. Dos amores que secam. Dos beijos que amargam. Dos abraços que afrouxam. Da rotina que sufoca. Das manhãs solitárias. Das noites sem dormir. Da solidão que ataca. Da desilusão que habita. Das palavras que machucam. Dos nós na garganta. Da ansiedade que aperta. Da desesperança que mata.  Das falsas promessas. Das despedidas que doem. Da culpa que pesa. Dos pesos que curvam.
Livrai-nos de todo o mal.
Amém.

sábado, 20 de outubro de 2012

Enfim sós

Nós dois éramos dois sós.
Nós dois viramos um só.
Nós dois brilhamos como sóis.
Nós dois já não somos nós.
Nós dois que ficamos sós.
Nós dois que viramos pó.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Falta


Giro a chave. Destranco a porta. Rodo a maçaneta e dói. Dói o primeiro passo, dói o segundo. Dói cada segundo. Respiro para tomar coragem e me assusto porque me dói o respirar sem você.

Deixo a bolsa no sofá, me dirijo para a cozinha. Café, cigarro, um destilado e sua ausência me acompanharão hoje. E como dói. Me tortura o vazio dos seus olhos, que enche a casa e ilumina os cômodos com a sua sombra. Me torturam as suas palavras mas, mais ainda, me tortura o sussurro do seu silêncio.

Começo ler um livro, ouvir uma música, ver um filme. Termino de ver o livro e de ouvir o filme. A música emudece como a sua fala e me assombra. Me assombra saber que sua sombra está longe daqui. Me assombra minha sombra sombria e sozinha na meia luz.

Vejo nosso quarto. A bagunça deixada na mesa de televisão. O prato com o resto do jantar. A bagunça deixada  no que resta de mim. O seu lado do armário, o seu lado da cama. O seu lado longe do meu lado me faz ficar sem jeito. Sem jeito de arrumar as coisas, sem jeito de fazer comida, sem jeito de escolher limões. Tudo é sem jeito sem você. Até eu, desajeitada e desajustada com a saudade que você me traz.

O relógio não cede, as horas travam. Passo a passo pela casa vazia, meu coração descompassado bate em sentido anti horário. Nada mais tem sentido e eu sinto cada pedaço de você que falta em mim.

Falta seu cheiro nos meus cabelos e os seus cabelos fazendo nós nos nós dos meus dedos. Faltam os seus sonhos, partilhados pela manhã com o café. Faltam ainda seis horas para o nascer do sol. Faltam muitos dias para o fim do mês e faltam três meses para o fim do ano.  Talvez ainda me restem muitos anos na vida mas, com a sua falta, faltará toda a vida nos meus anos.


segunda-feira, 12 de março de 2012

O dia D

Eu não ligo para datas. Não, não estou tentando fazer gênero. Você me conhece bem para saber que eu não sou dessas coisas. Na verdade eu tenho uma vaga ideia de quando começamos a namorar devido às festas que nós fomos. Sim, vivemos em festa. E sabemos fazer a festa!

Talvez por eu já estar demasiado calejada de lembrar de dias que há muito perderam o significado e de datas que, já não sendo minhas, ainda voltam na cabeça vez por outra, meu cérebro decidiu parar de processar esse tipo de informação.

Por isso amor, talvez eu não lembre de comemorar meses de namoro. Talvez eu esqueça datas que parecem relevantes para tanta gente. A verdade é que eu odeio ter dias estipulados para ser feliz. Porque desde que te conheci sou feliz todos os dias.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

(Imper)Feito pra mim

Pode acordar de mau humor, que eu também não sou de falar de manhã. E pode não tolerar que se conte o final dos filmes porque eu também odeio quem tem essa mania. Pode não suportar funk que isso também é coisa que não entra no meu MP3 (embora eu adore dançar, confesso).

Se não tomar cerveja não importa, o meu veneno de eleição é a vodka. Também pode odiar ser interrompido quando está concentrado. Eu sei bem o quanto isso é terrível. Até pode odiar multidões porque apesar de eu ser social, aprecio ficar em casa vendo um filme no típico "programinha a dois".

Reclamar para caramba não é problema porque eu me junto no coro dos revoltosos. Acha que não dança mas não deixa de me tirar para dançar. Se não for de ficar ligando não há problemas, porque eu detesto falar ao telefone. E se for do tipo que não tira a mão de cima tanto melhor, porque eu sou igualzinha.

Pode não perfeito mas, nas susas imperfeições, parece que foi feito pra mim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Soma

E essa gente que adora se ocupar com a vida alheia, hein?

Vocês podem não acreditar, mas algumas almas mal amadas - mas bem intencionadas - disseram para ele que eu não prestava. Pode isso, gente? Curiosamente, as mesmíssimas criaturas me disseram que ele também não prestava!

O resultado, todavia, foi diferente do esperado.

Porque somando-se os dois que não prestavam separados esperava-se um zero. Mas não, nós dois formamos um. Um casal que, ok, tenho que admitir: não presta. Que não presta contas aos outros, que não presta atenção às fofocas e, principalmente, que não se presta a pensar pela cabeça de terceiros.

Porém, num ponto as más línguas acertaram: nós não fomos feitos para ter relacionamentos sérios. Já passamos por isso, não deu certo. Então agora escolhemos experimentar uma coisa diferente, meio "new age". Resolvemos ter um relacionamento engraçado, onde a gente é livre para rir o tempo todo.

Tem funcionado, sabe? Estranhamente desenvolvemos o hábito de confiar um no outro. Uma mania que nasceu entre as piadas, o sarcasmo, o riso de doer a barriga e as longas conversas em que um assunto emenda no outro. Foi mais ou menos quando surgiram também os silêncios. Aqueles que não incomodavam e que diziam tudo sem necessidade de palavras. Em que falamos com os olhos e em que sorrimos cúmplices.

Silêncios onde nos reconhecemos refletidos um no outro e que tivemos a certeza que, prestando ou não, a gente se merece.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Rua da Saudade

Às vezes tenho noites de nada para fazer. Ainda mais agora, com a proibição dos downloads, me pego sem nenhum episódio das minhas séries para assistir. A televisão não ajuda e confesso que tenho tido alguma falta de motivação para a leitura.

Os amigos até chamam para sair mas, sabe aqueles dias em que é gostoso ficar em casa? Não, não é tristeza e nem sempre é cansaço. Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de sair. Mas, quem me conhece de verdade, sabe também o quanto eu gosto de ficar no meu cantinho.

Nessas noites o único passeio que eu dou é pela Rua da Saudade quando, entre Hey Jude e  Stairway to Heaven, eu abro pastas antigas da minha vida, armazenadas toscamente em forma de zeros e uns. Aí moram amigos com quem eu perdi o contato por desleixo ou simplesmente porque a vida nos levou para lugares diferentes.

Revejo ex-amores aqui e uns casinhos sem importância acolá. Passo em silêncio por eles. Me pergunto como estarão, se continuam sendo os mesmos babacas de antigamente ou se... Abano a cabeça e afasto esses pensamentos. Sigo em frente porque é para lá que a vida caminha.

Chego ao meu lugar preferido: a esquina das viagens. Relembro a vez que dormi na porta de uma igreja em Madrid porque não sabia que o estacionamento fechava após a meia noite. O cheiro enjoado dos coffee shops de Amsterdam e do cara que me pediu em casamento após uma conversa de meia hora. O frio de Berlim. A minha incursão pela "sopa dos pobres" em Genebra e a épica viagem rumo à Tomatina: sem hotel, sem ideia de onde ficar e sem um banheiro. Foi aí que eu virei hippie.

Ah, sim, claro! Os monumentos. Mas nem é tanto por ter visto a Monalisa assim, de "pertinho" - separada apenas pelo vidro, pelo cordão de segurança e pelos setecentos e trinta e oito turistas japoneses que se acotovelavam para tirar fotos sem olhar diretamente para ela uma única vez. É por estar lá e por ser das pessoas que pode se gabar de ter visto o quadro gigantesco na parede oposta à obra do Sr. Da Vinci. Nem foi tanto por ver a Torre Eiffel, mas sim pelo que eu ri sozinha quando eu descobri que tinha comprado o bilhete errado e teria que subir a bagaça toda a pé. E a soneca que eu tirei por baixo da torre, depois de descer.

Mais do que o que eu vi, gosto de lembrar o que senti. E esses passeios pela memória me fazem um bem danado. No entanto, não me posso prender apenas a isso. Porque bem que dizem que recordar é viver. Mas é preciso viver para recordar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Arte de Marinheiro


Para manter um amor são precisos nós.
Nós simples, sem complicações.
Amarrados com naturalidade.
Nós fortes e seguros, sem pontas soltas.
Nós enrolados um no outro, mas sem enrolação.
Nós para resistir ao tempo e às tempestades.
Nós que ninguém separe.
Nós unidos um no outro.
Nós dois.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

M.

Eu vou lembrar sempre de você com a lágrima mais alegre e o sorriso mais triste. Doeu a sua partida. Ainda está doendo. O ano, que mal aprendeu a engatinhar, já me levou o sabor do teu corpo e trouxe o amargo da saudade. Ainda assim continuo sorrindo. Porque você me puxou do precipício do não sentir e me trouxe de volta a vontade de ficar. Mesmo sabendo desde o começo que não seria para sempre, você me fez confiante para largar as amarras me permitir a entrega.

Você devolveu minhas asas em madrugadas de sol. Me enxergou. E eu, refletida nos seus olhos, me enxerguei também. Mudou o rumo da minha trilha sonora. Desde que eu te conheci que não paro de ouvir Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Suave, leve e florido, como todas as coisas que fizemos. Enchemos nossas memórias com os melhores clichês. Povoamos as noites com música e dança. Mesmo as noites de chuva. Especialmente as noites de chuva.  Principalmente debaixo daquela chuva, em que você me segurou quando o céu se vestia de todas as cores.

Enquanto o mundo brindava um recomeço, eu transbordava felicidade pelos olhos, já que só o sorriso não era mais suficiente. Porque com você, todos os momentos foram um recomeço. Feliz dois mil e doce.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Emergency Call

- 911, what's your emergency?
- I fell.
- Where m'am?
- I fell in love.
- Oh, I'm sorry. Did you break anything?
- Just my heart.
- Does it hurt?
- Only when I breathe.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

The Scar Project

Correntes me iram profundamente. E elas tem evoluído conforme evolui a tecnologia. Antes chegavam por carta. Eu recebi umas duas ou três na época de colégio. Depois, passaram a vir por email, até entrarem com a força toda nas redes sociais.

A última moda são aqueles joguinhos do Facebook de colocar coisas meio nadaver no status "em prol do câncer de mama". Ah, e claro, não vamos contar aos homens!

Agora me digam: como é que um status de facebook completamente desconexo vai contribuir para a luta contra o câncer de mama? Qual é a ligação lógica entre as duas coisas, minha gente?

Sabem o que ajuda, pessoal? Sabem o que ajuda de verdade? Isso.

Essas mulheres que tiveram a coragem de se despir dos preconceitos e enfrentar os olhares do mundo. Sobreviventes mutiladas. Gladiadoras privadas de um dos atributos essenciais da feminilidade.

Elas, que poderiam estar vulneváveis em frente à câmera, são acometidas de uma grandeza tamanha, que a nós só nos resta admirá-las. Pela coragem, pela força, pela vitória. Com marcas de batalha que vão para além da cicatriz visível. Que se refletem nos olhos, na postura. Todas elas são vencedoras.

É um trabalho cru, corajoso, chocante e bonito. Como um soco no estômago, fez com que eu imediatamente levasse as mãos aos peitos. E por isso eu sou grata a elas. Não só por relembrarem a importância do auto-exame mas também por me fazerem deixar para trás complexos bobos de imagem.

E divulgo isso aqui no meu espaço, assim, pra todo mundo ver. Porque até pode ser só um post num blog, mas se mais alguém se tocar depois de ler isto, essas meninas terão vencido mais uma batalha.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ao mar

Eu olho para você e sorrio querendo te amar.
Eu olho para você e só rio querendo-te mais.
Eu olho para você e sou rio querendo-te mar.

sábado, 8 de outubro de 2011

Pantone

- Onde você vai?

Nem foi tanto a pergunta que o surpreendeu. Nunca se tinham visto e ela agarrara-o pelo braço com um excesso de familiaridade que lhe era estranho. Bom, não é bem que nunca se tivessem visto. Já tinham trocado olhares. Azul no Castanho de leve. Mas nada que explicasse esta atitude dela. Perplexo, balbuciou:

- Eu só... Ali... Bem... Ao bar... Uma cerveja
- Não. Você não vai. Quer dizer, fica... - Disse ela, ainda segurando-o pelo braço, mas moderando o tom ao perceber que talvez tivesse exagerado.

Ele ele olhou para ela sem dizer nada, no fundo dos olhos. Azul no Castanho com intensidade.

- ... a gente ainda não dançou. - Disse, por fim, soltando o braço do rapaz.

Foram dois segundos que pareceram uma eternidade. Ela tentava fazer a pose de mulher atrevida e confiante que sempre sonhara ser. Por dentro morria de medo que o largar do braço significasse um virar de costas e até nunca mais. Tentava a todo custo manter a timidez escondida naquele cantinho da espinha dorsal.

Ele assentiu com um aceno de cabeça quase imperceptível. Começou a movimentar-se meio sem jeito em volta dela. Talvez, no planeta dele, aquilo seria considerado dançar. O Azul brincalhão roçava no Castanho sorridente.

- Eu vou ali para a janela fumar.
- Me dá um cigarro? - Disse ela rapidamente tentando evitar que Azul e Castanho se perdessem no meio da multidão.

Ele acendeu o dela. Ela engasgou levemente, pois fumar não fazia parte dos seus hábitos. Azul e Castanho se estudavam, envoltos numa nuvem cinza.

- Quer caipirinha?
- Quer me deixar bêbado?

Azul e Castanho sorriram. Se provocavam. Ela esforçava-se para manter a ousadia, que nunca lhe fora natural. A timidez ameaçou saltar do esconderijo. Ela endireitou a coluna. Azul e Castanho, ligeiramente ébrios, ficaram mais próximos, separados por um fino véu de fumaça que bailava.

- Adoro essa música. - Disse ela ao reconhecer os primeiros acordes de uma canção.
- Dança comigo.

Dessa vez era ele quem fazia o pedido. Já não se mexia descoordenadamente. O corpo, colado no corpo, se movia em uníssono. Num roçar leve de lábios, Azul e Castanho foram cobertos por pálpebras. Assim permaneceram.

Azul e Castanho se procuravam. De forma cada vez mais frenética. Pode-se até dizer eles se viam, mesmo sem verem mais nada. Foi quando os lábios se soltaram que Azul e Castanho se reencontraram e pediram mais.

Se olharam, se saborearam, se mesclaram. Azul penetrante, Castanho misterioso. Azul acastanhado, Castanho azulado.

Se transformaram numa única cor. A cor da felicidade de pertencerem um ao outro.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pois é assim que eu me sinto. Como um punhado de areia. Você pode achar que me tem nas mãos, mas eu escorro por entre os vãos dos dedos se me apertar com força e vôo com o vento se não me envolver.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Amigos do peito

Meus queridos,

É com muita tristeza que escrevo essa carta, depois de vocês terem me abandonado.

Nós já nos conhecíamos há um tempinho e eu adorei todos os momentos que passamos juntos. Sem dúvidas vocês me trouxeram muitas alegrias. Eu sabia que vocês estavam lá por mim, em todos os momentos, porém nunca tomei vocês como garantidos. Não quero que pensem que eu não vos dava o merecido valor!

Ainda assim, e de maneira abrupta, vocês decidiram que era chegada a hora de me deixar. Fizeram-no da noite para o dia, sem aviso prévio e sem sequer escrever um bilhetinho de despedida. Achei isso muito injusto porque eu sempre tratei vocês com o maior carinho.

Não sei se terá sido por causa da ginástica. Eu sempre ouvi falar que existiam uns homens ciumentos que largavam as respectivas mulheres quando elas começavam a ficar gostosonas. Medo de levar um chifre, entendem? Mas sempre pensei que isso fosse coisa de meninos inseguros e imaturos. Aí, toma! Vocês e resolvem fazer a mesma coisa comigo.

Estou muito desolada. Não era nada disso que eu queria, meninos. Eu nunca menosprezei a nossa relação e jamais iria pensar em trocar vocês por outros. Creio que vocês interpretaram mal as minhas palavras e partiram sem me dar chance me explicar.

Vejam bem: Quando eu dizia que queria emagrecer e perder gordura localizada eu estava me referindo às áreas do quadril, pernas e abdómen.

Vocês, meus queridos peitos, tinham toda a liberdade do mundo para permanecer onde estavam: lindos, roliços e cheinhos alegrando o meu decote!

Espero que essa carta encontre vocês bem e felizes. No entanto, antes de me despedir, gostaria de fazer um último apelo. Se quiserem voltar, o espaço de vocês no meu coração e sutiã estará sempre garantido.

Com amor,

An@Lu

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pornô, esse incompreendido

Se eu disser que todas as comédias são ruins, vocês vão concordar comigo? Não, né?! Porque se é certo que existem algumas que não valem nem o tempo gasto no download da internet, existem outras que valem até uma dose extra de pipoca no cinema.

O mesmo acontece com todos os tipos de filme. Ação, suspense, drama, policial, animação e até pornô.

Sim gente, sério! Vamos parar de hipocrisia, né pessoal! A gente vê umas 650 comédias românticas com a Sandra Bullock, Jennifer Anniston e o escambau. Se aqueles relacionamentos dão certo e eles são felizes para sempre, é porque a coisa rola bem na cama, no sofá e em cima da bancada da cozinha. Se não, duvido que o "felizes para sempre" durasse mais que 2 meses de sexo meia boca.

Pois é, o pornô é essa parte da comédia romântica que eles não mostram. Porque depois dos amassos iniciais eles cortam para um close da Gweneth Paltrow semi-descabelada no dia seguinte com o lençol cobrindo o corpo.

"Ah, mas filme pornô é muito falso!"

E comédia romântica é o quê, amiga? Vai dizer que você realmente acredita que existem uns Ben Stillers ou Owen Wilsons assim meio bobões mas completamente fiéis, românticos e apaixonados por aí? Que dizem tudo na hora certa? Que nunca querem ver o futebol na hora da sua novela e estão sempre prontos para ir às compras com você? Filme pornô é, antes de mais, um filme. Uma obra de ficção.

Também não estou aqui dizendo que filme pornô é uma arte e essa coisa toda que o pessoal inventa para não ser chamado de tarado. O pornô serve para alimentar as suas fantasias sexuais da mesma maneira que a ficção cientifica vem alimentar a sua imaginação. Gente, sexo é uma necessidade humana! Tão natural como comer e dormir. Se existem filmes sobre comer e dormir, qual é o mal de existirem filmes sobre sexo?

Tá, concordo. Tem muita bizarrice por aí. Muito pornô ruim, mecânico, sem graça. Mas e as comédias sem graça, os dramalhões exagerados e os filmes de ação em que não acontece nada? Não vou citar nomes, porque gosto cinematográfico é uma coisa pessoal porém, vamos combinar que se o primeiro American Pie até foi engraçado, os demais ficam muito a desejar... Isso sim é que deveria ser proibido!

Não, não é todo o pornô que é ruim. Talvez você ainda não tenha encontrado um que tenha sido bom pra você. Sugiro uma pesquisa na internet, de preferência com boa companhia e camisinhas. Vale até pedir sugestões aos amigos!

Mãos à obra!