domingo, 13 de dezembro de 2015

3.2

A versão 3.2 é mais rápida. Essa é uma das principais diferenças em relação ao modelo anterior. Tem uma velocidade de 8,9 km/h. O consumo, porém, se manteve. Não é possível operar este modelo sem uma quantidade mínima de cafeína.

A versão 3.2 também é mais resistente. Foram feitos vários testes nos últimos anos e o protótipo se mostrou capaz de levantar a cada queda, apesar de alguns arranhões, nem sempre visíveis.
Nesta versão os engenheiros optaram por abandonar um extra que vinha ocupando espaço em modelos anteriores. O resultado não poderia ter sido melhor. A versão 3.2 ganhou leveza, autonomia e uma delicadeza que não se via desde o modelo 2.9.

A versão 3.2 vem ainda com um acessório um pouco barulhento e, por vezes, pouco funcional. Contudo, já foi verificado que sem esse acessório a máquina se torna incapaz de funcionar.

Sabemos que essa ainda não é a versão final e que ainda há muitas melhorias a serem feitas, no entanto, estamos orgulhosos e felizes com os resultados alcançados até aqui.

Janela virtual

Quando a gente terminou eu botei cortinas novas nas janelas e prometi a mim mesma nunca mais abri-las já que o meu apartamento, que era de fundos, dava de frente para a sua casa. Mas não foi suficiente para bater a força da natureza humana. Essa sede mesquinha de saber, de analisar e esmiuçar à procura daquele segundo onde tudo mudou.

A cada coisa que você fazia eu me torturava mais um pouquinho, eu torcia de leve o punhal sobre a carne. Eu espiava sua vida com devoção e regularidade mas sempre de longe, sorrateiramente. Fiquei alguns meses assim, bisbilhotando, vivenciando em silêncio cada passo seu através das cortinas novas que eu tinha jurado fechar para sempre.

Vi você se formar, vi seus dias ruins, vi você feliz. Secretamente eu rezava para que um dia você parasse em frente à minha janela e lembrasse que eu estava lá, pacientemente, à espera. Mais do que querer, eu acreditava que isso aconteceria.

Até que um dia, aconteceu. Parece coisa de cinema. Você ficou ali, em frente à minha janela e abriu os braços. Foi aí que meu coração, tão cansado dos meses de sofrimento calado, parou de vez. Ela caminhou na sua direção e encaixou perfeitamente no seu abraço, de um jeito que só eu achava que cabia.

Taquei fogo nas cortinas e coloquei o apartamento de fundos à venda. Hoje eu moro de frente para o mar e a única coisa que eu vejo quando olho da minha janela é o infinito.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sometimes I wonder what the hell I am teaching these people. Because I really wanna know whose Past is really simple and whose Present is really perfect.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Maybe there's no right side to this fight. Actually, there's probably no right side to this. Wars will always be wars, and there are no winners in that. But a friend of mine asked for a favor and her suffering, her people's suffering, spoke louder. I had to choose sides and, more because of friendhsip than political beliefs, I'm 100% israeli.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Da urgência e do amor

O mundo hoje sofre de urgências. As pessoas querem amar, precisam amar. Nessa carência exarcebadada, acabamos caindo na banalização do amor. Você começa um relacionamento e ama. Arruma um novo amigo e ama. Vai comprar pão e ama. Ama tanto que já nem sabe mais a quem se destina tanto amor.

É nesse afã de amar tudo o que respira e mexe que se denota uma impaciência tão característica da nossa condição humana. Queremos um grande amor, já. Queremos para ontem o que temos medo de não ter jamais. Procuramos alguém que nos traga a pessoa amada em três dias. Em duas horas. No intervalo da novela. Enquanto a pizza não chega. Enquanto se esquenta a comida no microondas.

Já não sabemos esperar. Queremos fotos digitais que se vêem na hora. Internet mais rápida. Carros mais velozes. Fast food. Computadores mais eficientes. Tudo para ganhar tempo.

Mas... Tempo para quê?

Tempo para tirarmos mais fotos mais rápidas. Para fazermos mais downloads de filmes que não teremos tempo pra ver. Para chegarmos mais rápido e fazermos mais coisas simultaneamente, sem perda de tempo porque, como reza o adágio: "Tempo é dinheiro". Contudo, ao poupar esse bem tão precioso, perdemos a vida.

Perdemos as horas de ansiedade gostosa na espera de fotos por serem reveladas. Perdemos o borbulhar da água fervendo no fogão e o cheiro de refogado que inunda a casa. A riqueza de detalhes de um passeio a pé. O sabor da comida feita a partir do nada. Sobretudo, perdemos a beleza da conquista de um amor que, ao contrário de um pacotinho de miojo, não é instantâneo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

B.

Não sei como textos tristes te arrancam sorrisos tão lindos mas, pra te fazer sorrir, eu seria triste a minha vida inteira.

Crônica à Morte

Então ela olhou bem fundo nos olhos do abismo da sua existência. Lá de baixo, a miséria lhe sorria, zombeteira. Tinha cabelos grisalhos e sonhos destruídos. Longe ia o tempo da mocidade alegre e pensamentos distraídos.

O rosto encovado escondia o sorriso que já há muito deixara sua face. Os olhos baços não lembravam nem de longe o olhar esperançoso que costumavam exibir sem pudor. Sim, andava encurvada por todo peso de uma existência vazia. Pés cansados, calejados de vagar sem destino por um tempo que parecia correr ao contrário. Mãos grossas, pesadas que eram nada mais que um testemunho de uma vida passada a escorar lágrimas que jorravam feito tempestade. Sem delicadeza. Sem beleza. Sem nada que remotamente trouxesse algo de bom.

Quis sorrir mais uma vez. Em vão. Quis calar, mas da sua boca sairam duas palavras que não conseguiu conter. E, enquanto o abismo lhe devorava, expirou:

- À Deus.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Oração

... mas livrai-nos do mal. E dos sorrisos forçados. Das alegrias que faltam. Das tristezas que duram. Dos amores que secam. Dos beijos que amargam. Dos abraços que afrouxam. Da rotina que sufoca. Das manhãs solitárias. Das noites sem dormir. Da solidão que ataca. Da desilusão que habita. Das palavras que machucam. Dos nós na garganta. Da ansiedade que aperta. Da desesperança que mata.  Das falsas promessas. Das despedidas que doem. Da culpa que pesa. Dos pesos que curvam.
Livrai-nos de todo o mal.
Amém.

Food for thought

If your children grew up to be like you, would you be happy with that?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

João


- Oi, eu queria cortar o cabelo.
- Sim, por aqui. Já sabe como quer cortar?
- Joãozinho.

Silêncio. Ela me olha incrédula. Olha em volta para as colegas que também permanecem boquiabertas. Ela quer dizer muita coisa, quer me convencer do contrário e me mandar fazer dois anos de terapia, mas só consegue balbuciar:

- Tem... Tem... Certeza?
- Sim.

E foi com essa palavra que eu selei meu destino.

Mas ok, certeza, assim certeza, daquelas absolutas, eu não tinha. Passei uma hora dentro do ônibus decidindo que iria transformar o meu Channel em Natalie Portman e tomando coragem para isso.

Daí a urgência. Eu sabia que teria que saltar do ônibus e procurar imediatamente um cabeleireiro. Se deixasse para depois, perderia aquele fiozinho de determinação. It's now or never, como diria o Rei.

O resto do salão aguardava apreensivo o resultado. Ela começou. Pegou a tesoura com pesar e aparou minhas madeixas.

- Está bom?
- Mais curto, por favor.

Ela deu um suspiro de resignação. Corta daqui, apara dali, repica. Voilá.

- Está bom?
- Está.

Mas não estava. Com cabelo molhado e aquela capa de cabeleireiro em volta do pescoço eu estava xingando a Emma Watson de todos os nomes por parecer tão bonitinha com aquele cabelo, enganando jovens adultas como eu.

Olhei para o meu cabelo no chão. Pensei em guardar para reimplantação mas a assistente varreu tudo. Droga. Vou ter mesmo que esperar crescer.

Ela tira o manto preto, seca meu cabelo, passa cera e ajeita a franja. Meio desanimada, me olho novamente no espelho. Me surpreendo. Gosto muito do que me olha de volta.

Sorrio. Por ter tido coragem de mudar. E a coragem me foi devidamente recompensada:




"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."