domingo, 7 de setembro de 2008

Boa viagem

J.,

Você não quis que eu te acompanhasse nessa viagem. Mas você é distraído e se desorienta com facilidade. Por isso, se você se perder nessa floresta de gente, que a gente chama de cidade grande, eu prometo que vou te procurar.

A não ser que você não queira. Você continua gostando de se perder por aí, não é? Mas se não for para ir atrás de você, então avisa. Deixa de jogar migalhas pelo caminho. Porque, se eu não tiver um trilho para seguir, eu posso parar de procurar. Se eu não enxergar os pedacinhos de pão pela estrada, eu posso me enganar fingindo que foram os passarinhos que comeram tudo e... Oh, que azar!... Te perdi para sempre. E que foi tudo culpa do acaso. Mesmo tendo a certeza de que você não quis ser encontrado e que as migalhas não foram deixadas de propósito. Prometo fingir que não sei que você se perdeu de mim porque não quis mais que eu te procurasse.

Porque eu ia te encontrar de qualquer jeito. Eu sei para onde você vai. Sei também que no caminho tem uma casinha feita de doces onde você vai parar. Eu te conheço tão bem que sei que você não vai resistir à tentação. E sabe, me disseram que lá tem uma bruxa e eu sei que vou querer te poupar do perigo. Eu me conheço o suficiente para saber que vou ficar mordendo o travesseiro e me segurando para não gritar: “Não entra aí, é perigoso!”. Afinal você sempre contou com a minha mão para te guiar no meio da multidão.

Mas dessa vez você quis seguir sozinho. Pode ser que assim você escreva uma nova história.

Boa viagem,
M.


"Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?"
Chico Buarque

9 comentários:

Juliete disse...

Oi!
Nussa, lindo teu texto...
me fez refletir e realmente às vezes não percebemos, mas,
tem horas que devemos deixar alguem de lado e seguir seu próprio caminho, não por que optamos por isso, mas, por que é necessário.
Parabéns pelo texto!

Juliete Souza disse...

Oi!
Nussa, lindo teu texto...
me fez refletir e pensar melhor sobre isso...
realmente às vezes devemos deixar alguém seguir seus próprios caminhos, não por que queremos, mas, por vontade da outra pessoa.
Parabéns pelo texto!

Antonoly disse...

Esse é um texto para se refletir bastante, gostei!

www.blowgh.wordpress.com

Jé disse...

Belo texto!
Com certeza irei voltar aqui mais vezes! :)

amandaedalete disse...

Adorei seu texto.
Gostei do teplante tbm vlw.

MaxReinert disse...

Ahhhh... esses Joãozinhos da vida sempre são assim safados!!! Mas, se for .... quem sabe um dia ele não volta?

Tati disse...

1. às vezes me reconheço nessa sutileza de 'fingir que o acaso tomou proporções maiores'.
2. gostei demais desse post... a sinceridade dele chega a ser à flor da pele.
3. ahhhhh, o Chico.... que delícia.

blog disse...

Gostei do texto, e muito. Esse tom de confissão, Ana, eu acho arriscado - e corajoso. Mesmo que a ficção sobrepuje a realidade, prefiro pensá-la como real. Dá mais liga, fica melhor. E o leitor, sim, ele é que importa. Então, lá vou eu.
Abraços.

Larissa Bohnenberger disse...

Ás vezes quem deixa migalhas pelo caminho não as deixa pois quer ser encontrado. As deixa para poder acertar o caminho de volta.
Chico é tudo!
Bjs!