domingo, 10 de agosto de 2008

Capítulo 1

Como todo mundo, ela queria uma vida memorável e resolveu criá-la.

Então ela decidiu que aquele seria o primeiro capítulo da sua vida. Uau, estava escrevendo uma auto-biografia contínua. Quem é que não se sente importante desse jeito? Encarou o passado como um prefácio. Fez agradecimentos e decidiu que a história iria começar.

Mas, como em todo bom livro, a sua história tinha que ter um início em grande. Alguma coisa que marque o tom da narrativa. No primeiro dia acordou com o cachorro em cima da cama. Espreguiçou-se e decidiu que aquele começo não seria bom. "Vou tentar novamente amanhã".

Só que o dia seguinte era uma terça-feira. Nada se começa numa terça-feira, não é? "Vamos então adiar para a semana que vem". E nessa semana nem notou o nascimento do sobrinho. Não falou do abraço que deu na irmã, nas gargalhadas por causa de um tropeção na calçada. E, que tropeção! Troceu o tornozelo e teve que ficar uma semana de muletas.

É claro que a sua história não podia começar apenas com um pé, certo? E adiou novamente o primeiro capítulo.

E foi adiando. Uma vez era porque estava chovendo, outro dia foi porque quebrou o salto do sapato e ainda teve aquela vez que decidiu que não podia começar a biografia porque apanhou todos os semáforos vermelhos no caminho para o trabalho.

Só que, à medida que ia adiando a sua história, adiava também a sua vida. Não adotou aquele dálmata que estava sozinho na rua, não foi jantar com as amigas porque não era o dia certo, não fez nada extraordinário, nada memorável. Tudo o que fez foi esperar o dia certo.

Esse dia veio em meados de setembro, junto com a primavera. Um sol lindo e ela acordou com um cabelo esplendoroso. Até tinha emagrecido um quilo e meio nessa semana. Enquanto caminhava pela rua ia pensando nas primeiras palavras do seu livro.

Foi aí que aconteceu. Foi tudo tão rápido que ela nem conseguiria descrever. E só se lembrava da dor excruciante, do sangue, da perna num ângulo estranho e dos estranhos se acumulando à volta dela. Do som da ambulância ao longe e do moço chorando deseperado perto do carro, se perguntando: "Meu Deus, o que eu fiz?".

Desmaiou. Antes de abrir os olhos, ouviu os sussurros do médico, os bips dos aparelho e ainda sentia dor.

Viu que a sua vida já não dava para um livro. Foi quando, no hospital, pouco antes de perder a consciência, encontrou uma menina, para quem ditou esse conto aqui.

Suspirou.

E foi o fim.

11 comentários:

Ane disse...

Final inesperado, mesmo assim gostei do texto! =)

Abraço!

Gabriela disse...

Tudo aconteceu tão rápido na vida da personagem (rs). Ía ser legal se eu achasse um dálmata na rua, mas só vejo vira latas...
Abraço.

Sammyra Santana disse...

ai... e ainda bem que ela encontrou a menina pra ditar esse conto aqui!
Beijo

Dário Souza disse...

Nao entendi exatamente o que ocorreu no final.Ela matou alguem ??

berenice disse...

Olá Ana.
Que ótimos texto este. Gostei bastante. Um final diferente, bem incomum.

Obrigada pela visita!
Abraços.
Berenice

blog disse...

A idéia é boa, assim como a realização metalingüística.
Gostei.
Mas acho que não havia necessidade das frases finais. Mas o texto é seu e vc o termina como quiser.
Foi somente uma sugestão de quem curtiu mo miniconto.

A preopísito: não está faltando nada em "Mas, como todo bom livro, a sua história tinha que ter um início em grande."?

Abraços

Anónimo disse...

Muito bom seu blog, parabéns pelo conteudo e pelo topo do seu blog, muito criativo

RUBENS CORREIA
www.blogdorubinho.cjb.net

An@Lu disse...

corrigido :)
Obrigada pela crítica!

James Bond disse...

Ana parabéns pelo blog, honesto, layout limpo, legivel e sem aquele monte de propaganda que o pessoal bota por ai! Curti a mix tape tb...bju

MaxReinert disse...

Linda.....

Sei bem como é essa sensação de "esperar" por algo pra começar a vida...

Acabo de sair de uma espera de 07 meses aproximadamente e só agora consegui perceber quanto tempo perdi...

Pelo menos não fui atropelado!

Ainda!!!!

Bjzzzzz

Sammyra Santana disse...

ó eu aqui de novo!
vim retribuir e agradecer tua visita ao meu blog tb!
Beijo, flor